Grêmio Estudantil do Franco
CRÔNICA
Era provavelmente fevereiro de 1987 e o sinal já tinha tocado. Passei o recreio inteiro na fila da cantina e demorei a perceber que o pátio estava vazio. Cheguei atrasado na aula de História no quarto tempo de meu primeiro dia de Franco.
— Você é novo no colégio? Desta vez passa.
Assenti. O nome do professor era Ronaldo. Não sei por onde anda hoje. Na verdade, há dois anos que eu troquei os tempos de cinquenta minutos por aulas de duas horas. Levei sete anos escutando o sinal várias vezes por dia e há dois anos que não ouço mais o sinal. No Centro Tecnológico da UFRJ, na Ilha do Fundão, ele não existe mais.
Vão-se os colegas, ficam-se os amigos. Vão-se os inspetores, o uniforme, os professores, a caderneta… Ficam-se as lembranças. Pelo amor de Deus, Sílvia, a rádio-relógio de A Hora da Estrela é puramente alienante. Pombas, Aquino, Grécia e Finlândia não são parte da Europa Oriental!
Mas nem só porque tudo virou passado, tudo virou flores. Há um aspecto preocupante, que se torna mais claro com o afastamento. Para onde caminha o octogenário Liceu Franco-Brasileiro? O perfil do formando do Franco está realmente de acordo com a filosofia do colégio?
A resposta é não. Não é proposta do CFB criar máquinas fazedoras de provas, seres adornados por uma bela crosta superficial que esconde, no seu interior, o mais absoluto vazio!… Não pode ser proposta do CFB formar seres cujas angústias mais profundas são “quanto vou precisar na final de matemática” ou “fulana brigou com o seu namorado”!
A adolescência é notoriamente a fase do despertar, das contestações, e cabe ao colégio incentivar e direcionar esse questionamento. É preciso confrontar o aluno a cada dia com sua condição de homem — ser pensante, escravo da natureza —, e cidadão, escravo do sistema. Como faz falta um curso de filosofia, uma introdução ao pensamento clássico e moderno! A juventude precisa nutrir-se de novas e excitantes ideias, de ousadia, de revolução… Só daí pode nascer a maturidade!
Seria extremamente injusto culpar o Franco por esse fenômeno infeliz, que assola certamente qualquer outro colégio. Culpar então a quem? A toda uma geração, rotulando-a de apática, alienada? Não é por aí.
O mundo tornou-se uma apoteose do individualismo. Reverter esse quadro é tão difícil quanto necessário. Tenho certeza de que o Franco-Brasileiro, com a sua tradição e a excelência de seus profissionais e discentes, não há de se omitir nessa luta. O CFB deve continuar tentando fazer o que hoje ninguém parece conseguir: formar homens e cidadãos no seu sentido mais amplo, que é o da busca incessante do seu próprio sentido.
Estamos em outubro de 1995. Quase noventa (ou oitenta!) anos depois, o sinal continua certamente tocando. Mas quem há de tocar o sinal?
Daniel Moczydlower, ex-aluno (1987–1993), estudante de Engenharia Química da UFRJ.