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Franco Atirador p.5

Grêmio Estudantil do  Franco

Franco Atirador

O LICEU — SEUS TEMPOS, SUAS GENTES…

Embora possa parecer, não foi exatamente o sobrenome de minha mãe, muito menos o do meu pai, respectivamente, Mavigner Colin e Gill, os responsáveis pela minha matrícula no nosso querido Liceu Franco-Brasileiro. A escolha deveu-se à verdadeira paixão que minha tia, Maria de Lourdes Gill, tinha pela cultura francesa e, pour sûr, ter sido aluna do tradicional L’Immaculée Conception, ali na Enseada de Botafogo.

Quando o bonde “Águas Férreas” passava em frente ao Liceu, minha tia sempre dizia: “— Pedro Paulo, veja ali! Quando você completar 7 anos, vai estudar naquele colégio.” Dito e feito! Entregou-me às mãos de Mme. Brigole, sua amiga, que logo me levou à sala da primeira série e, diante de meus olhos deslumbrados, mostrou-me uma princesa de contos de fadas, daqueles de ilustração nórdica…

Cabelinho louro, encaracolado e, nos olhos, duas águas-marinhas! Era Réne… Parodiando Manoel Bandeira, foi “… a minha primeira namorada!” E foi muito bom que fosse assim, para compensar a terrível presença do furibundo “Seu Moacir”, inspetor. Fugíamos à sua presença! Depois, ao passar do tempo, descobrimos nele um bom homem. Da mesma forma que o pacífico “Seu Raimundo”, era o chefe de disciplina, camarada! Contava para a gente seus feitos heroicos de ex-bombeiro. E também o “Seu Rocha”, o tesoureiro. Chegava cedo, saía tarde, sempre “kantianamente”, nos mesmos horários, marcados pelo nosso mui leal RELÓGIO, em frente ao pátio interno.

Naqueles tempos, quando a traquinagem passava dos limites (o que hoje seria considerado brincadeirinha de anjos no céu católico), “Seu Moacir” berrava: — Vai já para debaixo do relógio… Anda logo!

Muita coisa foi alterada na arquitetura do colégio. Por exemplo, ao lado e nos fundos, havia imensas e centenárias árvores. Era tudo muito bucólico! Principalmente ao entardecer, quando a passarinhada se ia, paulatinamente calando, e baixava em todo o pátio interno um silêncio monástico. Gostava muito de ouvir esse silêncio! Era uma espécie de meditação transcendental, inconsciente. Surgia então a figura do Zé Moreira, o faxineiro, com seu cabelo arrepiado, seus baldes e vassouras… E o ruído do roçado no chão, como que música de background a contrapontuar aquele diálogo com o silêncio.

De repente, daquela porta da secretaria, saía a figura enorme de um autêntico gaulês, com aquele bigodão, uma batíssima cabeleira, tudo muito ruivo e muito avermelhadas as mãos, que, por potentes correias, seguravam dois imensos pastores belgas, para fazerem seus promenades, nas suas bem merecidas happy hours. Na cabeça de Monsieur Forrestier, o diretor francês, só faltava mesmo o típico capacete do exército das Gálias, como aquele do “Hagar, o Horrível!”. Era a rotina diária, durante o ano. As aulas terminavam às 5 da tarde e já às 6 e meia ninguém mais no colégio. Meus pais só me podiam buscar às 7 horas. Eram funcionários públicos, à antiga, isto é, cumpriam rigorosamente seus horários.

Dizem que sou uma pessoa ensimesmada… Pudera! Já imaginaram um garoto de 9 anos, diariamente, a conviver com aquela solidão que durava uma eternidade! Vocês não acreditam, mas eu gostava muito disso! Era a oportunidade que tinha para conversar comigo mesmo, repassar tudo o que ocorrera durante o dia, nas aulas, nos corredores, no pátio…

Ah! A Dona Rosa! Quem era? Claro! A velhinha portuguesa que, perto do portão principal, vendia os melhores doces do mundo. Principalmente aquelas queijadinhas, para Fernando Pessoa nenhum botar defeito. Hoje, não mais poderia existir nem mesmo o espírito de Dona Rosa. Seria esmagada pelo trânsito infernal de gente e de carros, naquele cantinho que era só seu…

Aí, passa-se, ainda mais, o tempo. Era já o do antigo ginásio, como se chamava. Eram outros os professores e professoras. Não teríamos mais Dona Besinha ou Dona Nair, sua irmã. “Seu Moacyr” ainda permaneceu um pouco mais; depois se aposentou e quem se entristeceu mais com isso foi o RELÓGIO, pois nunca mais ouviu ser celebrado em “altos brados”. Para o lugar de “Seu Moacyr”, entrou para o Liceu um mineiro recém-chegado ao Rio, com aquele caminhar gingado do interiorano, “dez para as duas”. Fala mansa, educado, era o nosso Zé Pinheiro, que fez carreira bonita no Liceu, aposentando-se como tesoureiro do colégio. E o Zé Arrepiado, lembram-se? Virou gerente, ou dono mesmo, da cantina do colégio, e trouxe a família para ali trabalhar com ele.

Passa-se o tempo mais ainda! Estamos fechando o segundo grau… O professor Firmo Costa, claro, é o primeiro que vem à lembrança. Era um paraibano ilustre, mestre de Português, Geografia e parecia saber tudo mais. Quem estivesse no meio do Largo do Machado sabia quando Firmo Costa dava aulas: sua voz estentórea extravasava! Aí os professores das salas contíguas vinham e imploravam: “— Firmo, por favor!” Ele repetia a dose, mais assanhado do que nunca, agora apenas para o reclamante! Firmo Costa era impagável!

Em absoluto contraste com Firmo Costa, estava lá a presença taciturna, enigmática e misteriosa do professor Miguel Pereira, irmão de Lúcia, a escritora, filhos do grande sanitarista. A antiga localidade de Estiva, no Rio de Janeiro, é hoje o Município de Miguel Pereira, em merecida homenagem. Matemático! Era o nosso terror! Um simples erro numa divisão de decimais, no exame oral de fim de ano: reprovação na certa! Hoje ele teria como apelido “O Exterminador do Futuro”. Seu filho, o Miguel Pereira Neto, era nosso colega de turma e hoje, senão me engano, é médico pediatra de renome.

E o professor Álvaro Kilkerry! Irlandês no sobrenome, mas baianíssimo no sotaque e na cor. Um jurista de escol, famoso pela oratória (não fora ele baiano e emérito professor da famosa Faculdade de Direito, na então Rua do Catete). Dava Filosofia para nós, com toda a retórica necessária. Era marido de Dona Naná, nossa professora de História. Muito elegante no ensinar e no trajar.

E tínhamos também o nosso “viking” particular: o Prof. Ansgar Knud Jensen (a pronúncia é “iansem”). Um dinamarquês imenso, outrora louríssimo, mas já grisalho então, grandes olhos, da cor dos fjords de sua terra, um azul profundo. Lecionava Latim e Inglês. Se fosse mais gordo e de barbas brancas, passaria fácil, fácil, por Papai Noel. Tinha uma voz de trovão, mas uma ternura de yidishe mame. Já naqueles idos dos anos quarenta, era preocupado com ecologia, era naturalista e montanhista — um autêntico nórdico.

Tínhamos também, para aqueles tempos, o moderníssimo Abelardo, professor de Desenho. Foi o paraninfo em nossa formatura. O ainda jovenzinho Luiz Eduardo Machado, professor de Física, que, muito depois, se tornaria uma de nossas maiores expressões de Astronomia. E por aí vai… a lista é grande. Não caberiam todos aqui.

Como enorme será a lista de alunos liceístas que tornaram este Brasil um pouco mais digno! … Por várias gerações, neste seu longo currículo de oitenta anos. Políticos como Carlos Lacerda, monges beneditinos como D. João Evangelista Enout e D. Irineu Penna; Aurimar Rocha, outro talentoso autor-ator, que tão cedo nos deixou. O Jorge Cherkes, que aí está juntamente com os Pinheiros: o Albino, que hoje já se identifica com a cultura carioca; seus irmãos Cláudio, Amauri e, o caçula — “se não me engano” (como dizia Firmo Costa) — Luiz.

Naqueles tempos, os quatro irmãos, a partir do Albino, eram os xerox reduzidos um do outro. Todos com a mesma vastíssima cabeleira negra e igual penteado, à base de Brillcream… Fios do mesmo “DNA” do famoso tio, o grande poeta-musical Custódio de Mesquita, pela elegância apelidado de “o cisne”. Até nos antigos concursos de beleza feminina, o Liceu esteve presente e vitorioso, com nossa colega Adalgisa Colombo, que virou Miss Brasil. Na época, isso empolgava.

Ex-liceístas, de modo geral, puderam sentir-se vitoriosos também em suas carreiras de escolha, nos diversos ramos de sua especialidade. Profissionais liberais, artistas, comerciantes — enfim, nossos colegas, em diversas gerações, têm honrado o nome do Liceu.

Dos três “P” da minha turma, ao longo dos anos, Paulo César Saraceni virou superstar, como um dos grandes cineastas brasileiros.

Gostaria de finalizar relembrando as três saudosas mestras francesas que, por quase dez anos, nos acompanharam, instilando-nos saberes e amor pela cultura, de modo geral. Por ordem de entrada, Mme. Arrigaret e a notável Mme. Guisy. Esta, uma expert em Literatura Francesa, apresentou-me Saint-Exupéry — sua vida e obra —, pela qual sou apaixonado!

E termino dizendo que foi de uma das cadeiras de nosso salão nobre-teatro que me lancei para as Ciências Sociais e para a vida, vendo e ouvindo o grande André Maurois, em carne, osso e espírito, naquele honroso palco de nosso já octogenário mas eterno “Lycée Français”.

Do colega Pedro Paulo Colin Gill, 11 de novembro de 1995.

Branco

Jornal do Grêmio Estudantil do Colégio Franco-Brasileiro
Redator-Editor: Gustavo Vital (3001)
Edição: Mikair M. Lopes (1004)
Diretoria do Grêmio: Guilherme Pimenta (1002), Leandro Carneiro (3001), Paula Pinto (3001), Bernardo Jones (2002), Claudio Junior (2001), Rodrigo da Paz (3001).
Agradecimentos: Pedro Paulo Gill, Professora Soninha, Professora Lenira, Daniel Moczydlower, Professora Yolanda e Diretora Pedagógica Celuta Reissmann.

Branco

TESTE SEUS CONHECIMENTOS SOBRE SEU COLÉGIO
Respostas: 1–C, 2–B, 3–B, 4–B, 5–B, 6–A, 7–A, 8–C, 9–B, 10–A, 11–B, 12–C. (voltar aos testes)