Crônicas

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Grêmio Alain Resnais

Itamara Scaini

Piso do Franco

Em 1968, quando todo tipo de grêmio estudantil estava proibido pelo Governo Militar, conseguimos, com Dona Eliana, a permissão para fundar um Grêmio Artístico e Literário. Para impressionar, demos ao grêmio o nome de Alain Resnais, cineasta francês “cult” na época.

Para a presidência do grêmio, lançaram-se dois candidatos, ambos do 1º ano Científico de 1968: Mário Rosas e Ricardo. Eram líderes carismáticos e adorados. Tanto a turma quanto o colégio estavam divididos. A campanha, que começou no boca a boca, tomou grandes proporções — cartazes, discursos, movimentação… Na véspera da eleição, o Sr. Lycurgo sai do banheiro dos meninos e “voa” para a sala da Dona Eliana. Hora do recreio. Dona Eliana sai da sala, atravessa o pátio e entra no banheiro dos meninos, com eles lá dentro! No pátio, um silêncio sepulcral.

Minutos depois, ela sai com um cartaz nas mãos e chama: Mário! Na minha sala!

Silêncio.

Mais tarde, o Mário sai, com aquele jeitinho dele de andar curvado, mas meio sorrindo. Tomou uma boa bronca. Não lembro se foi suspenso, mas o motivo da bronca foi o cartaz que ele havia colocado em cima do mictório dos meninos, onde se lia:

“O FUTURO DO GRÊMIO ESTÁ EM SUAS MÃOS: Vote no MÁRIO!”

Ele ganhou as eleições, e o Ricardo, cordialmente, foi o primeiro a cumprimentá-lo em sala de aula. Ambos mereciam.

Muitos filmes foram projetados no auditório do Franco. Um dos que mais me marcou foi “A Guerra dos Botões”. Alguém lembra? Lindo! E “Mon Oncle”, também lindíssimo. Também foram realizadas exposições de arte dos alunos, e filmes educativos eram exibidos.

Aos sábados, podíamos ouvir vitrola e dançar. Ouvíamos Sérgio Mendes & Brasil ’66, Chico Buarque, Charles Aznavour, Ed Lincoln. Meu coração ainda ouve “The Look of Love”, do Sérgio Mendes. Discos que a gente comprava no Maurício, na Galeria Condor… Tempos de namorar, fazer arte, brincar… Tempo de ser feliz!

(Crônica escrita em 1999.)