Crônicas

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Uma História de Amor

Itamara Scaini

Em 1968, eu fazia o 1º ano Clássico no Liceu. Nosso Professor de História era o Sr. Kwiukern (não me lembro se é assim que se escreve o nome dele).

Uma manhã, sendo sua aula a primeira e não havendo nunca um minuto de atraso, ele não chegou. Dez minutos depois fomos comunicados de seu falecimento. Foi uma comoção pública. Dezenas de alunos e ex-alunos se concentraram no Colégio Bennett, onde ele também dava aulas e onde foi velado, para acompanharem seu enterro.

Uma semana aproximadamente depois, chegou à nossa sala um “sujeito” com um par de óculos de lentes bem grossas, terno antiquado e um tanto o quanto gordinho. Entrou na sala timidamente e apresentou-se como o novo professor de História. Seu nome: Rubim Santos Leão de Aquino.

Com o passar dos dias comecei a ver a História de outro ângulo. Ele a mostrava e ensinava de forma totalmente diferente do convencional. Apaixonei-me por ela. Não era mais necessário decorar fatos, precisávamos ler e entender. Só.

Passaram-se muitos anos e fatos. Em 1993, morando em Belém do Pará, liguei a TV para assistir ao Sem Censura Pará. Na chamada do programa vi um sujeito que ia ser entrevistado que não poderia haver outro em lugar algum. Liguei para a emissora e perguntei se era o professor Aquino. Era!!!

Dei meu telefone e pedi para que ele me ligasse. A apresentadora, logo no início do programa, leu a mensagem que foi seguida de um pulo do professor para pegar meu telefone. Logo após ele faria uma conferência num colégio local.

Corri para lá e, tão logo ele entra no palco, pergunta por sua ex-aluna:
— Quero te ver. Cadê você?
— Aqui! Respondo.

Muito papo e o convidei para também fazer uma palestra no colégio em que minhas filhas estudavam, e cujos professores e diretores eram muito amigos.

Dia seguinte, 7h30 da manhã, todos lá, sala cheia, pediram-me que o apresentasse. Comecei então a contar a estória de meu encontro com ele, como comecei aqui.

Ao olhar para ele, seus olhos estavam marejados e, ato contínuo, um grande abraço. Dirigindo-se à plateia, o Professor Aquino, muito emocionado, contou que, apenas dez dias antes, o Liceu havia comemorado os 25 anos de sua permanência no nosso querido colégio.

A emoção tomou conta de todos, inclusive dos alunos, que fizeram com que uma palestra de cerca de uma hora durasse quase três.

Histórias como essa nos lembram que o presente e o passado, muitas vezes, estão tão próximos que se torna difícil saber em que momento da História estamos.

Um beijo, Professor Aquino.

(Crônica escrita em 1999.)

(A resposta do Professor Aquino a esta carta-crônica pode ser lida em “Uma Vida”.)