Crônicas

inicial > memória > crônicas > crônica 01 >>

O Franco na Amazônia

Luiz Claudio P. Azevedo

Camisa do Franco

Estudei no Colégio Franco-Brasileiro entre 1965 e 1978. Foram anos intensos, tempos de descobertas, de amizades verdadeiras e de professores que boas lembranças. O Franco foi o alicerce da minha formação, o lugar onde aprendi não apenas conteúdos, mas também valores, respeito e curiosidade pelo mundo. Até hoje mantenho contato com alguns dos grandes amigos que fiz ali, laços que resistiram às mudanças, às distâncias e ao tempo.

Alguns anos depois, em 1984, já como jovem oficial da Marinha do Brasil, vivi um daqueles momentos que parecem simples, mas se tornam inesquecíveis. Eu servia a bordo do Navio-Patrulha Fluvial Pedro Teixeira, navegando pelos rios da Amazônia. A missão era nobre e desafiadora: patrulhar a região e levar assistência médica e odontológica às populações ribeirinhas, comunidades isoladas, a maioria acessível apenas por via fluvial.

A Amazônia é um mundo à parte. A imensidão dos rios, o verde sem fim, o calor, a umidade, os insetos e os sons da floresta formavam um cenário grandioso e, ao mesmo tempo, simples. Em cada parada, encontrávamos pessoas acolhedoras, curiosas com o navio e gratas pela ajuda que levávamos.

Foi numa dessas paradas, na cidade de Tefé, às margens do rio Solimões, que vivi uma cena que guardo até hoje. Estávamos atracados, e a tripulação auxiliava na distribuição de medicamentos e alimentos. Eu observava as crianças que corriam e brincavam perto do cais quando, de repente, algo me chamou a atenção.

Entre as muitas camisetas coloridas e gastas pelo tempo, uma delas se destacou. Era branca, com letras azuis familiares. Olhei mais de perto e mal pude acreditar: era uma camisa do Colégio Franco-Brasileiro.

Por um instante, o tempo pareceu suspenso. Ali, no coração da Amazônia, a milhares de quilômetros do Rio de Janeiro, eu via diante de mim um símbolo da minha infância, da minha juventude, do meu colégio. Era como se o Franco tivesse atravessado rios e florestas para me reencontrar.

Aproximei-me do menino, ainda surpreso, e perguntei onde havia conseguido aquela camisa. Ele respondeu, com a simplicidade típica das crianças, que as freiras de um convento da cidade tinham recebido roupas de doações vindas de longe, e que a camiseta era uma delas.

Sorri. Havia algo profundamente simbólico naquela cena. Aquele garoto, com uma peça de roupa simples e desbotada, representava uma ponte invisível entre dois mundos: o do aluno carioca de outrora e o do militar que agora singrava os rios da Amazônia.

Não houve fotografia. As câmeras eram raras e o momento, fugaz. Mas a imagem ficou gravada na memória com nitidez: um menino ribeirinho vestindo a camisa do Franco, numa manhã abafada de Tefé, cercado pelo verde e pelo som dos motores do Pedro Teixeira.

Sempre que recordo esse episódio, sinto a mesma emoção e o mesmo orgulho. O Franco, de alguma forma, estava ali comigo — naquela viagem, naquela missão, naquele encontro improvável. Talvez seja isso o mais bonito dessa história: a certeza de que as nossas origens seguem conosco, mesmo quando a vida nos leva para muito longe. ⚓

(Crônica escrita em 1999.)