Crônicas

inicial > memória > crônicas > crônica 17 >>

Queridos... Querida Professora

Luiz Claudio P. Azevedo

Entrada do Franco

Embora fosse estudioso, demorei a conseguir boas notas em Português. A melhora começou quando passei a ter aulas particulares com Dirce Brígida — ex-aluna do Franco e colega da minha irmã Stella. As dicas que esta irmã me dava, sobretudo em Redação, também ajudaram bastante.

Mas a maior motivação para buscar um desempenho melhor na disciplina foi a professora Sylvia de Lóssio Seiblitz. Gostava muito das suas aulas. Ela era exigente, mas sempre carinhosa e justa.

Certa vez, nossa colega Jaíra José entregou a redação muito antes de o tempo acabar. Dona Sylvia perguntou se ela tinha certeza de que queria deixar o texto assim, pois ainda havia bastante tempo. Jaíra confirmou. Na aula seguinte, a professora, com simpatia, reconheceu que ela tinha escrito pouco, mas muito bem. Nota dez.

Em outra ocasião, Milton e eu fomos conversar com a professora, pois achávamos que nossa nota de conceito tinha sido baixa. Apesar de não falarmos muito, estávamos sempre atentos. Ela ouviu com calma, ponderou e, de forma democrática, concordou em alterar a nota.

Suas aulas eram cheias de expressões marcantes e bem-humoradas: “taico-taico school” (uma alusão à “escola da tia Teteca”), a vírgula era a “virgulina”, entre tantas outras. Costumávamos apostar quantas vezes ela diria “queridos” durante a aula. Quando descobria a brincadeira, passava a usar outros vocativos, como “discípulos”.

Ao devolver as provas, adorava pregar pequenas peças nos alunos. Dizia, em tom sério, aos que tinham tirado boas notas:
“Você não estudou, não é?”
E só depois revelava o resultado, entre risadas.

Quando algum aluno, nas vistas de prova, mostrava um erro de correção que diminuía a própria nota, ela dizia com doçura:
“Fica pela honestidade.”

Em 1978, com 15 anos, quando eu estava no terceiro ano científico, houve um concurso de poesias no Franco. Pensei em participar com um singelo poema em homenagem à nossa querida professora, usando as suas frases mais célebres. Mas, tímido como era — e certo da simplicidade dos meus versos — acabei guardando o texto.

Hoje, mais de vinte anos depois, deixo aqui minha humilde homenagem, escrita com o mesmo carinho e gratidão que sentia na adolescência.

     Queridos… Querida Professora.

     Com licença, querida?
     A senhora já explicou…
     Sabes o que vou falar?
     Muito bem, errou!

     Hoje falo de ti, mestra,
     eu, sinestésica criatura,
     que muitas vezes, confesso,
     deixei de lado a leitura.

     Detestava o Português —
     ora, ora, sou brasileiro!
     Mas a senhora é incentivo:
     estudei o dia inteiro.

     “Não dou aula, vendo aula”,
     disse a senhora, muito bem.
     Sua aula não é só aula,
     é alegria também!

     Vou terminando aqui mesmo,
     nem muito bem, nem muito mal,
     com o meu caderno of dia,
     usando um ponto final.

(Crônica escrita em 1999.)

Você lembra de outras frases que a Professora Sylvia costumava dizer?
A Stella Maria lembrou uma das mais clássicas: “Dura lex é de lex, no caderno é só zerex.”