Eduardo Soares da Silva
Deveríamos estar por volta do ano de 1976. Éramos adoráveis adolescentes do segundo científico, ávidos por fazer qualquer coisa que contrariasse alguém — ou simplesmente o cotidiano.
Lá pelas tantas, tivemos a ideia de fazer um jornal. Havíamos vencido as eleições para o Grêmio Estudantil, com Pery Faria do Brasil Salgado como presidente, eu como vice e outros mais. A Lygia Maria Botelho Ayub nos passou o cargo. Não me lembro se havia outra chapa nem quem eram os adversários.
A ideia do jornal (acho) não agradou muito à direção, mas, com um espírito democrático até elevado para a época, Dona Eliana permitiu a iniciativa — desde que aceitássemos a censura prévia (que, diga-se, nunca chegou a cortar nada).
Por falta de dinheiro, o jornal acabou se tornando mural, afixado no fundo do pátio, de frente para as quadras de esportes. O conteúdo não era lá muito profundo: política, nem pensar, pois ainda vivíamos sob o regime militar, ouvindo, ainda discretamente, apelos pela abertura.
Mas o interessante dessa história seria o nome. Qual nome dar ao jornal?
É preciso recordar a geografia do colégio. Dominando todo o pátio de recreio ficava imponente — não pelo luxo, que não existia, mas pela privilegiada posição de fiscalização do miolo do colégio — o gabinete da Dona Eliana.
Verdadeiro Gibraltar controlando o Mediterrâneo (shiiiiii…).
Aquela guarita não poderia ter a visão encoberta por cortinas ou outros adereços. Mantinha-se impecavelmente desobstruída, com suas janelas de vidro a mirar o coração do Franco. Chamávamos essa sala envidraçada — e o apelido não nasceu na minha época, vinha de muito antes —, maliciosamente, de Aquário.
Pois bem, o nome do jornal não poderia ser outro: “Aquário”.
E, na apresentação do primeiro número à diretora, então também censora, não faltou a inevitável interrogação:
— Por que “Aquário”?
A resposta estava na ponta da língua, deliciosa e tipicamente adolescente:
— Porque a era de Aquário está chegando, e o jornal é jovem, ora…
(Petrópolis, 22 de junho de 1999.)