Crônicas

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Viajando... no tempo e no espaço!

Itamara Scaini

Lycée Français

Em 1969, quando tive que sair do Liceu, o fiz contrariada, mas quem estudou naquela época deve lembrar que não havia como escapar. Era o tempo dos “famigerados” cursinhos para o vestibular e… bem, isso não interessa.

De qualquer forma, uma ou outra amizade ficou. No meu caso, seguiram comigo para a faculdade a Lenora e a Leila (eram primas), a Cristina Trengrouse, o Júlio Lambertson Rabelo e a Márcia Tassinari. Fomos todos para a PUC, cada um em um curso, mas, de qualquer forma, na mesma instituição.

Amizade mesmo, só restou a da Cristina, que me acompanha ao longo destes quase quarenta anos (nossa!). As demais foram se perdendo, ficando em algum lugar do tempo e do espaço.

Num domingo, navegando pela internet, procurei o site do Franco (essa história vocês já conhecem) e nasceu, com a paciência do Luiz Claudio, a página atual: o Site do Franco!

“Oportunamente”, em maio passado, surgiu a chance de eu ir ao Rio “fora de época”. Lancei-me nessa empreitada como uma guerreira. Dei horas de aulas dobradas para compensar a semana que passaria no Rio, negociei um monte de coisas e, no dia 21, véspera da viagem, quando um amigo me fez uma pergunta, percebi que estava em Manaus apenas de corpo presente… eu mesma já havia voado.

Chegando ao Rio, liguei rapidinho para a Cristina e para o Mário Tapajoz. Por essas peças da vida, não consegui encontrar o Mário no dia marcado.

Na segunda-feira, dia 24, fui almoçar com a Dona Eliana. Quanta coisa boa lembramos! Como ela continua firme, carismática e — mesmo que não queira parecer — ansiosa por nos rever.

Depois do almoço, rumei para o Franco como um soldado, na firme expectativa de realizar meu intento: procurar arquivos, fotos, histórias… tudo o que fosse possível sobre o meu colégio.

Fui recebida pela Dona Norma, que não poupou esforços em atender-me. Logo depois chegou a Dona Celuta, que me recebeu com um abraço tão apertado que tive certeza de que era mais uma de nós, parte da nossa comunidade. Disse-me ela:
— Como você ama este colégio!

Tenho a impressão de que ainda hoje ela não sabe a dimensão desse amor.

Liguei então para o Mário e, segundo ele, dei uma ordem:
— Vem pra cá!

E ele foi. Momentos depois, estávamos os dois mergulhados numa imensidão de fotos, telegramas, poeira e muitos risos, exclamações e algumas lágrimas contidas — essas coisas.

Separar isto, aquilo, aquele outro… procurar daqui, procurar dali… Pessoas entravam e saíam, juntando-se a nós na alegria juvenil. Separamos tantas coisas que nem sei como o Luiz Claudio vai fazer para colocar tudo na página!

Telefonamos para muitas pessoas e conseguimos nos agendar para o dia da palestra do professor Aquino (realizada em 27 de maio). Mas, antes de irmos embora, precisávamos guardar o material.

Foi nesse momento que tive uma grande emoção. Lembram da escada de acesso à antiga parte francesa do Liceu? Pois bem, é lá que se guardam todas as nossas fotos, nossos amigos, o nosso passado.

Ao olhar aquele armário, que sempre esteve lá, descobri que, na verdade, nesses últimos trinta anos, nós nunca saímos do Franco! Estivemos lá o tempo todo, observando cada turma que passava, cada pintura feita, cada rostinho novo.

Nunca saímos de lá — e agora, mais do que nunca, tenho certeza de que lá ficaremos para sempre, vigiando para que nada mude naquele prédio amado, testemunha da nossa história pessoal, do nosso crescimento e das nossas alegrias juvenis.

Sinto-me aliviada. Estávamos escondidos, mas agora estamos aqui, reconstruindo uma velha e querida história. E isso é muito bom, já que costumam dizer que somos um povo sem memória.

Ah! Antes de terminar, queria lembrar mais uma coisa: na quinta-feira, depois da palestra do professor Aquino (que o Sérgio Fonseca confessou ter “babado”), saímos em um grupo menor: Mário, Paulo (Pestana), Alain, John, Cristina, Márcia Tassinari, Sônia Nery, Beth Barros e eu.

Quantas coisas lembramos, dissemos, rimos! No dia seguinte, conversando com o Mário, ele me disse:
— Itamara, você viu o que aconteceu ontem?
— O quê? — perguntei, certa de uma nova fofoca…
— Nós éramos um bando de cinquentões adolescentes! [risos]

O Mário está certo! Durante algumas horas daquela noite de 27 de maio de 1999, adolescemos pela segunda vez. Saímos do nosso esconderijo e reatamos os laços de uma grande e, desta vez, infindável amizade.

Até a próxima.

(Crônica escrita em 1999.)