Sérgio Luiz de Araujo Fonseca
Primeiro Científico, 1975 ou 1976.
Substância pura, mistura. Maria pediu um ovo. Bico de pato, formoso periquito, com ácido clorídrico não me meto. Sulfito dá sulfato, sulfato dá sulfito.
O querido professor Bahiana, de Química, era mesmo uma figura. Implacável na distribuição de notas baixas, bom contador de casos… Disse uma vez ter sido, aos seus setenta e muitos anos, atropelado por um fusca. Safou-se usando o guarda-chuva como alavanca de apoio e, como um gato, pulou sobre o carro.
Tinha excelente gosto na alocação das primeiras filas na sala de laboratório. Alunos em forma, meninas na frente. Ia selecionando a dedo as que considerava mais bonitas para ocuparem as primeiras filas. Essas, inclusive, tinham sempre o máximo de pontos de conceito e recebiam convites para eventos externos — palestras, convenções — das quais ele participava ou assistia. Depois vinham as demais e, por último, os representantes da classe masculina.
As meninas das primeiras filas, porém, pagavam um preço alto… tinham que assistir às aulas munidas de guarda-chuva.
Um belo dia, houve um alvoroço no colégio: o professor havia dado queixa do roubo de seu relógio Patek Philippe, daqueles de bolso, com correntinha — imaginem só! O relógio sumiu após uma aula de Química. Alunos sob suspeita, promessas de suspensão e expulsão, ameaça de levar o caso à polícia… constrangimento geral.
Dias depois, o próprio professor encontrou o relógio, trancado em seu próprio armário. Tinha colocado lá e esquecido. Pedidos de desculpas, confusão desfeita.
Nesse mesmo ano, ele levou um monte de gente para a segunda época ao perguntar, na prova, sobre o processo de “ustulação da galena” — algo que jamais havia ensinado a ninguém.
Mas havia um outro professor Bahiana, que talvez poucos tenham conhecido. Quando eu e mais dois colegas fomos procurá-lo para dizer que não estávamos conseguindo acompanhar as aulas e que seríamos reprovados, ele se propôs a nos dar aulas aos sábados pela manhã, graciosamente, em seu apartamento abarrotado de livros e papéis, em Copacabana. Passamos de ano.
Tenho certeza de que, onde quer que esteja neste universo — que tão bem conhecia — ouvirá o meu agradecimento.
Obrigado, Professor.
(Crônica escrita em 1999.)