Marcelo Sampaio
O ano foi 1985. Estávamos no 1º ano do Científico (ou 2º grau, para os mais novos…) e, como todo mundo sabe, o professor Ney é mineiro, de uma pequena cidade chamada Ervália, perto de Viçosa.
Naquele ano, ele organizou uma excursão para sua cidade natal e para outras próximas — Ouro Preto, Viçosa e Mariana. Foram aproximadamente 80 alunos, dois ônibus lotados, para passar o fim de semana sob o comando do Ney, ajudado pelo não menos polêmico professor Nivaldo.
A primeira parada foi em Ervália, onde já estava combinado um joguinho amistoso de vôlei feminino e futebol masculino entre os times do Franco e os adolescentes da cidade — e foi exatamente aí que a história começou.
Imaginem o que foi a chegada de um ônibus do Rio de Janeiro em uma pequena cidade de Minas Gerais… Pois naquela ocasião foram dois ônibus! Acredito que toda a cidade estava reunida naquela pequena quadra de esportes.
Na preliminar, as meninas começaram jogando, enquanto os meninos eram responsáveis pelo samba. Eu já estava me encaminhando para o reco-reco quando, ao passar ao lado da rede da quadra de vôlei, recebo um apito na mão — e sabe de quem? Pois é, do Nivaldo, que me passou o “mico-preto”.
Pois bem, comecei a apitar o jogo sob uma já esperada torcida contra. Resultado: as meninas perderam a partida, para a alegria da maioria da torcida e do juiz do jogo masculino — um nativo de uns 50 anos, com grande influência na cidade (algo semelhante ao Eurico Miranda).
Então começou o jogo dos rapazes. Cabem aqui dois comentários para que se perceba o clima: o juiz beneficiava descaradamente o time da casa; e os adversários pareciam formados por estudantes do supletivo — pelo tamanho e pela idade.
Com alguns minutos de jogo, a disputa lembrava mais futebol americano do que o tradicional. Depois de alguns lances desfavoráveis para o nosso lado, entrou em campo o Paulo Cavalo, que não jogava muito bem, mas era grande. No seu primeiro lance, fez uma falta que fazia jus à tônica do jogo: nosso time apanhando.
E o tempo fechou. Foi uma pancadaria generalizada, em que os únicos que tentavam apartar a briga eram o Ney e o Nivaldo. Até que, no meio da confusão, o Nivaldo — que tentava a paz — levou um tabefe no rosto que chegou a estalar. E o grande Nivaldo, de apaziguador, passou a ser o maior boxer que eu já vi: distribuiu muito tapa e alguns socos, beneficiado pela sua altura e pelo “know-how” da Mangueira.
Depois de alguns minutos de briga, veio a trégua. Rapidamente, o Ney ordenou que fôssemos embora naquele instante — afinal, o cerco estava se fechando contra nós, em minoria absoluta. Os ônibus partiram pela rua principal da cidade sob os olhos raivosos de toda a população ervaliense.
Acredito que, depois desse episódio, o Ney só tenha voltado à sua terra natal disfarçado, para não ser reconhecido. E nós ficamos com uma excelente impressão da receptividade mineira!
Um grande beijo saudoso a todos que vivenciaram essa história comigo. E um abraço espiritual ao saudoso Nivaldo, que, além de professor, foi um grande amigo.
(Crônica escrita em 1999.)