Crônicas

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A Imparcialidade Parcial

Sérgio Luiz de Araujo Fonseca

Banco Vermelho do Pátio

O ano era 1976. Cursava o 1º Científico. A turma era composta por adoráveis bagunceiros — eu inclusive.
A professora Sylvia nos dava aulas de Português, e a querida Dona Eliana, de Redação.

Um belo dia, a tia Sylvia faltou e fomos quase todos para o pátio bater papo. Eu, o Alceu, acho que o André Beviláqua e mais alguns fomos para o pátio dos fundos jogar pingue-pongue. Faltando uns vinte minutos para o término do que seria um tempo vago forçado, aparece a Dona Norma, perguntando por que não estávamos em sala.

Dona Eliana, na ausência da tia Sylvia, resolvera aplicar uma redação valendo nota, com esquema tipo vestibular. Cada aluno recebia uma etiqueta numerada para que não se soubesse de quem era o texto até a entrega das notas. Corremos para a sala. Recebi minha folha de prova e etiqueta numerada.

Havia três temas para a redação. Entre eles, “a febre das discotecas”. Escolhi esse. Na época, eu e um colega disputávamos o mercado de venda de fitas mixadas, então era muito fácil discorrer sobre o assunto. Acabei me empolgando com o tema, e o tempo curto não me permitiu concluir a redação. Lá se foi ela, sem final.

Na semana seguinte, chega Dona Eliana com as notas. O critério era o do vestibular, por letras, notas crescentes: Deficiente, Regular, Bom e A (sei lá de que, mas era a máxima). Começa a distribuição. Ela ia chamando os números das etiquetas e anunciando as notas, enquanto as pessoas se levantavam.

Nº W… R. Nº X… B. Nº Y… B. Nº Z… A… Até chegar o meu.
Nº N… “Apesar de não ter concluído a redação”, disse ela, “A”.

Caramba!, pensei, e levantei todo contente. Aí ela olhou para mim e disse:
— Ah, é você?
Rasurou e tascou um B.

Ainda tentei argumentar, mas não teve jeito. Podia virar um R… Tive que rir. Gostava dela assim mesmo.

Sempre que a encontro na rua, faço questão de cumprimentá-la. E ela sempre pergunta:
— Você fez Direito, não é?
E eu respondo:
— Não, Dona Eliana, sou Analista de Sistemas.

(Crônica escrita em 1999.)