Miriam Sapir Siag Landa
O ano? Ah! Lá pelos idos de 1955, 1956… Mas hoje, do alto dos meus 58 anos, posso afirmar: era um professor de vanguarda! Livro didático? Nem pensar. Ele mesmo elaborava as apostilas de exercícios — isto numa escola de elite e tradicional, onde a palavra apostila era quase desconhecida.
Chegava à classe descontraído, risonho, aproximando-se cada vez mais dos alunos através de sua jovialidade. Sim, pois era muito jovem, quem sabe recém-saído da universidade. Conseguiu impor sua moderna didática nesse seu, talvez, primeiro emprego.
Nada acontece por acaso: o meu amor e respeito pela Língua Portuguesa estão diretamente ligados a esse professor, cuja voz firme e carinhosa vibra até hoje em minha memória.
“Vamos fazer a pergunta ao verbo.” Sempre se dirigia à classe no coletivo, quase nunca individualmente a um aluno.
Este “que” do período… Que função vocês acham que tem? Ressaltava então o conceito certo, sem desmerecer ninguém — simplesmente ensinando crianças a pensar, a raciocinar — e assim aprendíamos a enfadonha análise sintática.
Éramos crianças de 11, 12 anos no máximo. Estávamos mais para brincadeiras do que para as famosas decorebas da época. Ele, então, percebeu: organizava maratonas de Língua Portuguesa entre as classes e transformava, semestralmente, o evento num grande acontecimento no auditório da escola.
Ah! Saudades das maratonas em que nós nos sentíamos participantes de um programa de auditório — e ele, quem sabe, não estivesse se sentindo o próprio talk-show man! O empenho dos alunos era grande; a vontade de brincar e competir só contribuía para engrandecer o aprendizado. Hoje esse tipo de atividade não causa estranheza, mas estamos a falar de quase meio século atrás…
O professor Júlio era tão querido que, quando nasceu sua primeira filha, nossa classe conseguiu fazer uma “vaquinha” com as parcas economias de nossas mesadas e compramos uma pulseirinha para a menina. Com que carinho este presente foi dado e com quanta emoção e gratidão foi recebido… Éramos pequenos, mas já percebíamos esses detalhes.
Professor Júlio Strosberg, do Liceu Franco-Brasileiro, Rio de Janeiro — você foi realmente um vanguardista naquele ambiente pra lá de tradicional. Onde quer que você (hoje já posso usar este tratamento) esteja, o meu muito obrigado!
(Crônica escrita em 1999? 2005?)
Tigers! Crocodiles! Namaria!